quarta-feira, 20 de maio de 2009

El Tigre




Por Bruno Gabrieli

"El Tigre"!!! Este foi o apelido que jogadores e jornalistas uruguaios deram a Arthur Friedenreich, um paulistano nascido na esquina das ruas Vitória e do Triunfo no bairro da Luz. Friedenreich nasceu em 1892 e era filho de um comerciante alemão com uma lavadeira negra nascida em São Paulo.

El Tigre foi o maior craque brasileiro do amadorismo, o primeiro ídolo do futebol brasileiro. Começou sua carreira no Germânia (atual Esporte Clube Pinheiros, durante a Segunda Guerra Mundial o clube de oringem alemã foi obrigado a mudar seu nome), em 1909. Fried era mulato e só conseguiu jogar no clube por ter oringem alemã, mas mesmo assim sobreu bastante preconceito nos corredores do clube. Isso fez com que ele saisse do Germânia e fosse jogar no Ypiranga, também da capital paulista. Em 1911 ele retorna ao Germânia, onde fica mais um ano. Nos anos seguintes Friedenreich roda em muitos times da capital, entre eles Mackenzie, Ypiranga, Atlas, Americano, Paulista, Payssandu, teve também uma breve passagem pelo Flamengo do Rio de Janeiro, até chegar no Paulistano em 1917, clube onde ele escreveu páginas maravilhosas da história do futebol brasileiro.

No Paulistano Fried ganhou nada menos que 6 títulos paulistas (1918, 1919, 1921, 1926, 1927 e 1929). Foi o grande nome deste time, que em 1925 foi o primeiro time brasileiro a fazer uma turnê pela Europa e em 10 jogos, foram 9 vitórias e um empate, após uma vitória de 7x2 em cima dos franceses, a imprensa francesa chamou Friedenreich de "O Rei do Futebol". Friedenreich foi artilheiro do campeonato paulista nove vezes: Mackenzie em 1912 com 12 gols, Ypiranga em 1914 com 12 gols, mais uma vez pelo Ypiranga em 1917 com 15 gols, pelo Paulistano ele foi o artilheiro em 1918 com 25 gols, 1919 com 26 gols, 1921 com 33 gols, 1927 com 13 gols, 1928 com 29 gols e 1929 com 16 gols. Além de ser o grande artilheiro do Paulistão, ele foi o artilheiro do Campeonato Carioca em 1935 no seu retorno ao Flamengo.

Em 1929 com o advento do profissionalismo no futebol, o Paulistano resolver dissolver seu departamento de futebol, nos meses seguintes Friedenreich ficou rodando por alguns clubes (Internacional de São Paulo, Atlético Santista e Santos) até ser criado o São Paulo da Floresta, clube fundado por jogadores do Paulistano que ficaram sem time para jogar, esse clube é o embrião do atual São Paulo Futebol Clube que surgiria em dezembro de 1935 após uma fusão. Pelo São Paulo da Floresta Friedenreich foi campeão Paulista mais uma vez, em 1931, acumulando o seu sétimo caneco do Paulista.


Friedenreich com o uniforme do Paulistano

Friedenreich teve uma grande carreira na Seleção Brasileira, participando da primeira partida realizada pelo selecionado brasileiro em 1914 contra o clube inglês Exeter City, neste jogo Fried saiu de campo com dois dentes quebrado devido ao jogo duro dos ingleses. O Brasil venceu o jogo. Mas seu grande momento foi no Sulamericano de 1919 disputado no Uruguai, na final contra os donos da casa, El Tigre marcou o gol da vitória brasileira na prorrogação ganhando assim seu famoso apelido e uma homenagem do compositor Pixinguinha que compôs o choro "Um a Zero". Em 1922 Friedenreich seria mais uma vez campeão Sulamericano pela seleção, de novo tendo um papel importante na conquista. Já no início do nosso futebol, a cartolagem já fazia suas imbecilidades, em 1930 por uma briga entre cartolas cariocas e paulistas, ficou decidido que jogadores paulistas não participariam da campanha brasileira na Copa do Uruguai, talvez se Friedenreich estivesse em campo, nossa sorte seria outra e poderíamos ter vencido nosso primeiro título mundial. Essa foi a grande decepção na vida do jogador. Em seus 23 jogos pela Seleção marcou 12 gols.

A vida e a carreira do Tigre foi marcada por algumas polêmicas e curiosidades, ele era contra o profissionalismo no futebol, mas foi o primeiro jogador brasileiro a fazer gol na era do profissonalismo. No dia 12 de março de 1933, as 16 horas e 7 minutos ele abriu o placar da partida entre São Paulo da Floresta e Santos, partida que marcou o início do profissionalismo no Brasil. A partida terminou com o placar de 4x1 para o São Paulo. Outra curiosidade na vida do jogador foi que ele se engajou na causa Paulista da Revolução Constitucionalista de 1932, doando medalhas e troféus pessoais aos praças paulistas.

Mesmo após sua morte, em uma casa doada pelo São Paulo Futebol Clube na Rua Cunha Gago no bairro de Pinheiros em São Paulo em 1969, ao 77 anos, uma polêmica cerca sua carreira em relação ao número de gols marcados pelo craque. O número que a Fifa e o Guiness Book reconhecem é de 1329 gols (no Guiness Book o recorde vem como não comprovado). Com esses números o Tigre seria o maior artilheiro da história do futebol mundial, mas essa quantidade de gols não possui comprovação e parece absurda devido a quantidade de partidas realizadas pelo jogador. Mas de onde vem esses números?

Seu pai, Oscar Friedenreich, anotava todos os gols feitos pelo seu filho em uma pasta, após sua morte, um amigo da família e jogador do Paulistano, Mario de Andrade (homônimo do famoso escritor modernista) teve a incumbência de anotar os gols, mas essa pasta se perdeu com o tempo e não existe a comprovação desse número de gols. Em 1999 o jornalista Alexandre da Costa fez uma grande pesquisa dos jogos e gols de Friedenreich, para a confecção do livro biográfico do jogador. Com base em jornais da época, o jornalista desmitificou a possibilidade de Friedenreich ter feito 1329 gols. Oficialmente o jogador marcou 554 gols em suas 561 partidas. Após esse levantamento Pelé volta a ser o maior artilheiro da história do futebol com 1282 gols, mas Friedenreich continua com um número impressionate, ele possui a maior média de gols da história do futebol. Em 561 partidas Fried marcou 554 gols, possuindo uma média de 0,99 gols por jogo, superando o Rei Pelé que tem uma média de 0,93 (1282 gols em 1375 jogos).

Polêmicas a parte, Friedenreich foi o grande jogador do futebol brasileiro na era do amadorismo, nas décadas de 10, 20 e 30 ele reinou absoluto nos campos brasileiros. Não à toa ele foi eleito o primeiro Rei do Futebol pelos Franceses e o Grande Tigre pelos Uruguaios!!!

3 comentários:

  1. Que história! Que jogador!
    O numero de gols que o pai anotou pode vir a ser no geral, contando toda a história do jogador, mesmo em jogos menores, ou mesmo pelo fato do futebol na época não ser profissional, os jogos por mais que fossem de times que viriam a ser grandes, não tinham a repercussão que possuem hoje. O bom que seja como for, por mais que o Pelé tenha o título de maior artilheiro, El Tigre foi reconhecido pelo número de gols x número de partidas. Agora imagina El Tigre tendo jogado 1375 jogos, como jogou o Pelé?

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  2. Dois dentes quebrados!!!

    Futebol de "macho" mesmo!!

    Parabéns ótimo post

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  3. Craque é craque, não importa em qual época, e sempre faz a diferença. Se El Tigre tivesse jogado a copa de 30, provavelmente nos sairímos bem melhor. Da mesma forma, cartolagem sempre faz lambança, não importa em qual época. Mais uma vez, parabéns Bruno!

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