segunda-feira, 29 de junho de 2009

A Tragédia de Heleno.


Heleno com a camisa do Botafogo

Por Bruno Gabrieli

O Campeonato Carioca de 1948 já estava praticamente decidido. O Vasco, campeão no ano anterior e com seu Expresso da Vitória a todo vapor vinha atropelando seus rivais, o Flamengo possuia uma linha média já envellhecida, os mesmos jogadores do tricampeonato de 44, o fluminense ainda chorando a perda de Ademir de Menezes que voltara para o Vasco e o Botafogo acabava de vender seu maior craque para o Boca Juniors, Heleno de freitas. É a história desse homem que pretendo contar nas próximas linhas.

Heleno de Freitas nasceu em São João Nepomuceno, Zona da Mata Mineira, no dia 20 de dezembro de 1920. Desde pequeno o garoto era dono de uma habilidade singular, e aos 6 anos de idade já arrancava elogios na categoria de base do pequeno Mangueira Futebol Clube de Nepomuceno. Além de sua habilidade singular, o pequeno Heleno se destacava pelo seu temperamento explosivo, era comum ele ser retirado dos treinos por brigas e desentendimentos com seus colegas de time e adversários.

Filho de uma família tradicional mineira, Heleno logo cedo aprendeu a falar inglês e francês, tinha acesso a bons livros, pois sua mãe era professora e seu pai era negociante de café e possuia uma loja de tecidos e chapéus. Aos 13 anos de idade, o garoto perdeu o pai, e sua mãe decidiu ir com a família morar na Capita Federal. Já no Rio de Janeiro, Heleno era figura fácil nas peladas da Praia de Copacabana, ali ele conheceu João Saldanha e Neném Prancha, que em 1935, o levou ao Botafogo para fazer um teste. Facilmente Heleno foi aceito e aos 14 anos de idade começou a treinas nas categorias de base do Fogão. Com o advento do profissonalismo, o Botafogo encerrou as atividades de sua categoria de base no final de 1936, e Heleno foi parar no Fluminense em 1937. 

Em 1939, ele passaria a atuar pelo time profissional do Fluminense, mas o técnico Ondino Viera tinha na mão um ataque fabuloso e tricampeão carioca (36,37 e 38) formado por Tim,, Pedro Amorin, Romeu, Russo e Hércules. Como Heleno tinha um cabeceio único, o técnico começou a escala-lo na zaga, isso deixou o craque furioso, que não quis saber de conversa e voltou para o Botafogo, agora já no profissional. Com 19 anos, estudante de direito, Heleno tinha uma classe diferenciada fora de campo, usava ternos alinhados, cabelos irretocáveis e um vocabulário que intimidava até os dirigentes provenientes das melhores camadas sociais. Porém dentro do campo ele colecionava confusões e desafetos, brigava a torto e direito, com seus companheiros, juizes, torcedores e adversários, quando saia de campo, era um gentleman, tratava todo mundo com muita educação e respeito.

Apesar de não ter ganhado títulos com o Botafogo, Heleno se transformou no maior ídolo do clube até a aparição de Garrincha, já nos anos 50. Marcava gols de tudo que era jeito, e arrancava gritos das torcedoras que frequentavam os estádios cariocas. Mas Heleno também colecionou polemicas fora dos gramados. Rico, o jogador frequentava os melhores cassinos da cidade e sua vida bohêmia regada de mulheres, cigarros, bebidas e éter, começaram a prejudicar seu desempenho dentro dos gramados. Em 1944, devido sua vida sexual nada cuidadosa, Heleno foi diagnosticado com sífilis, mas nunca admitiu a doença, e não se cuidou. As primeiras manchas começaram a aparecer na região genital do atléta, mesmo assim ele ignorou a doença e não procurou tratamento, então o pior aconteceu, a doença começou a se espalhar pelo corpo até chegar no cérebro.

Heleno com a camisa do Boca Juniors

As confusões dentro do gramado aumentaram, jogadores e funcionários do Botafogo não conseguiam mais manter um relacionamento com o craque, a ponto do técnico Ondino Vieira, agora em General Severiano, profetizar que o clube não seria campeão enquanto Heleno estivesse lá. A diretoria se viu em uma situação muito difícil, pois a torcida adorava Heleno, ele fazia a alegria da galera com seus gols e suas confusões. No final de 1947 veio uma proposta do Boca Juniors da Argentina, e os dirigentes botafoguenses não exitaram em negociar o craque. No inicio de 1948, Heleno deixava o Botafogo após 9 temporadas, apesar de não ter conquistado títulos, ele é dono de uma marca impressionante, 204 gols em 233 partidas, o que lhe confere uma média de 0,87 gols por partida. 

Você se lembra que no início do texto eu disse que o título de 48 estava bem encaminhado para o Expresso Vascaíno? Pois é, não foi o que aconteceu, a frase do técnico Ondino Vieira se confirmou, na temporada seguinte após a saída de Heleno o Botafogo se sagrou campeão carioca de 1948. 

A estréia no Boca Juniors não poderia ser melhor, marcando dois gols na vitória do time portenho sobre o Banfield por 3x0. Mas a saúde mental do atléta só piorava e as seguintes confusões na Argentina abreviaram sua passagem pelo Boca Juniors. Com apenas 7 gols em 1 ano, em 1949 Heleno deixava a Argentina e voltava ao Brasil, agora para jogar no Vasco. No Gigante da Colina, Heleno ganhou seu primeiro título carioca, mas não foi decisívo na conquista. Após mais um ano de muitas confusões dentro do gramado, o craque foi tentar a sorte no Eldorado Colombiano. Se juntou a grandes craques argentinos, como Di Stefano, Pederneira e Moreno, e foi jogar pelo Atlético Junior Barranquilla, onde fez fama e muitos gols. Virou personagem preferido de um jovem jornalista chamado Gabriel Garcia Marquez, que começava sua carreira, e o chamava de "Doutor Heleno".

Heleno não aguentou a vida solitária na Colombia e voltou ao Brasil, tentou seu retorno ao Vasco, mas o técnico cruzmaltino era Flávio Costa, que era um antigo desafeto de Heleno, além de não ter aceitado as críticas feitas pelo craque ao seu trabalho por não ter sido convocado para a Copa de 50. Heleno dizia que se ele estivesse em campo, o Maracanazo nunca teria acontecido. Sem nenhum contrato no Brasil, Heleno voltou para a Colombia, mas já com 30 anos e com sua vida bohêmia ainda a todo vapor, não conseguiu repetir as boas atuações de outrora, e em apenas 3 meses estava de volta ao Brasil.

De volta ao Brasil, em 1951, Heleno conseguiu um contrato com o Santos, mas nem chegou a estreiar pelo Alvinegro Praiano, em seus primeiros treinos arrumou uma confusão com os jogadores santistas e foi mandado embora pela diretoria. No mesmo ano, já muito doente Heleno conseguiu uma última chance no América do Rio de Janeiro. Mas em sua estréia, o jogador estava muito agitado, andava de um lado para o outro, e fumava compulsivamente, subiu ao gramado antes do time, e ali protagonizou a uma das cenas mais tristes do futebol brasileiro. Heleno de Freitas, outrora chamado de "O Craque das Multidões", que arrancava elogios dos torcedores por seus golaços de cabeça e suspiro das mulheres pelo seu charme e sua postura de artista de cinema, ficou parado no meio do gramado sem saber onde estava, assim, inerte, sem se mexer. Após o início da partida ele continuava parado sem saber quem era ou onde estava. Essa foi a última aparição do craque nos gramados.

Internado em uma clínica de repouso no Rio de Janeiro, nunca deixou de lado seu jeito rebelde e fugiu pulando os muros. Foi morar com sua mãe no mesmo Bairro de Copacabana onde sua história no Rio de Janeiro começara. Durante um tempo frequentava os treinos do Botafogo e queria entrar em campo pensando que ainda era o grande craque do time, depois que era convencido do contrario, ficava nas arquibancadas assistindo ao treino com um olhar perdido e vazio. Após os treinos ia no vestiario pedir dinheiro emprestado aos ex-colegas, e até para ex-desafetos, para sustentar seu vício em éter.

Sua vida terminou no dia 8 de novembro de 1959, aos 38 anos de idade, em um leito do Sanatório São Sebastião em Barbacena. O Grande Heleno de Freitas pagou caro por levar uma vida desregrada e por achar que era inatingível, inclusive por uma doença grave como a sífilis na época. O legado do jogador é muito grande, pela seleção brasileira marcou 15 gols em apenas 18 jogos. Na memória dos botafoguenses ele será sempre aquele jogador problemático capaz de levar uma multidão aos estádio, apenas para ve-lo jogar futebol, e as vezes arrumar confusões...


4 comentários:

  1. Que história hein?!

    Que sirva de lição para quem hoje vive uma vida desregrada por ter grana e fama, mas principalmente que não saia da memória pelo fato de ser, embora encrenqueiro, bom jogador que foi.

    Nota: Jamais imaginei que, em meio a história de futebol, fosse ler o nome do grande escritor Gabriel Garcia Marques.

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  2. Seus números pelo Botafogo falam por ele. Sem dúvida, um craque! Mas... por melhor jogador que tenha sido, ele é uma prova viva que craque-problema só atrapalha. Claro, o tipo folclórico, por tudo que fala e apronta, sempre está entre os preferidos da torcida, mas nesse caso nós vemos claramente que futebol não é só habilidade com a bola. Humildade, companherismo, disciplina, inteligência e bom-senso são as virtudes que faltaram ao craque. No final das contas, sempre, sempre mesmo, o maior prejudicado é o próprio jogador. Não defendo o jogador totalmente santinho, pois a rebeldia e irreverência são indissociáveis do futebol e fazem parte da energia criativa que movem muitos talentos. O problema é saber qual é o limite para isso. Aqueles que conhecem esse limite chegam ao céu, os que não, ao inferno. Jogadores vem e vão, o clube, para o bem ou para o mal, fica. Poucos são os grandes craques. Pouquíssimos são aqueles que entram para a história como craques que definiram o futebol no seu tempo. Mesmo sem ser um estudioso da bola, tenho certeza que histórias como a de Heleno existem aos montes. Que os jogadores de hoje e do futuro vejam este exemplo para melhor escreverem sua própria história. Sei que já virou rotina, mas parabéns Bruno! Grande post!

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  3. concordo com voces...
    é claro que é sempre divertido observar os "craques encrenqueiros" em campo, mas os jogadores deveriam sempre ter exemplos como esse em mente para saberem onde termina a diversão e começa o suicidio tanto profissional quanto pessoal

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